INGLÓRIA FARROUPILHA


Por mais exaltados e glorificados que foram os Generais, Coronéis e todo o oficialato Farroupilha, cujas homenagens e reconhecimento do povo do Rio Grande do Sul estamparam seus nomes em importantes ruas, avenidas e praças das nossas cidades, como denominaram municípios, estradas, prédios históricos e museus.

Não se pode retirar as virtudes heroicas e corajosas de nossos Generais e de seus comandados, que nos campos de batalhas impuseram manobras e táticas Napoleônicas, como ocorreu na conhecida batalha do Barro Vermelho em Rio Pardo, no dia 30 de abril de 1838. Na mesma, mais de cinco mil homens se enfrentaram sob a liderança de três Generais Farroupilha, tendo na liderança da trupe o General Bento Gonçalves, então Presidente da República Rio Grandense, se fazendo acompanhar pelos Generais Bento Manoel, que depois pulou o muro e foi defender os Imperiais, Antônio de Souza Neto, conhecido Zeca Neto, e o Coronel Domingos Crescêncio, cujo nome denomina uma importante rua localizada no Bairro Santana em Porto Alegre.

Domingos Crescêncio morreu durante o transcurso da Revolução Farroupilha, quando atravessava os campos de Viamão, retornando para a fronteira, onde havia nascido. Foi atingido por um atirador escondido. Domingos tinha 60 anos e estava próximo a ser elevado ao posto de General pela virtude de ter alcançado um dos maiores feitos da Revolução, ao derrotar General Pedro Labatut, veterano oficial de Napoleão,  que na época havia sido contratado pelo Império, vindo a lutar por dinheiro, comumente conhecido como mercenário do Império.

A batalha do Rio Vermelho, segundo historiadores, conta com fatos importantes e pitorescos que consagrariam qualquer autor, diretor ou roteirista de cinema, tendo em vista o Marechal Sebastião Barreto e o Major José Joaquin Andrade Neves, cujo nome também denomina importante Rua do centro de Porto Alegre, havia ordenado aos seus soldados a resistirem ao fogo do Exército Farroupilha, enquanto oficiais de altas patentes, inclusive o próprio Major Andrade Neves, fugiram de barcos pelas águas do Rio Jacuí.

Mas existe um fato ocorrido na Revolução que não podemos definir como corriqueiro de uma batalha, nem mesmo podemos nos orgulhar que todas as façanhas sirvam de modelo para a toda a terra. Isso, pois, enquanto não for esclarecida a manobra engenhosa tratada entre então Major Caxias e o General David Canabarro, que resultou na morte de aproximadamente 400 negros integrantes da Companhia Lanceiros Negros do exército Farroupilha, em 14 de novembro de 1844, por ocasião da carnificina conhecida pela História como a Batalha dos Porongos, ocorrida nos arredores da hoje cidade de Pinheiro Machado.

O General David Canabarro havia ordenado que desarmassem a tropa de Lanceiros Negros durante o percurso até o cerro de Porongos, onde hoje se localiza a cidade de Pinheiro Machado. Não havia nada por lá, até era para ir mais para frente, na divisa com o Uruguai, pois o intuito era esconder a chacina.

Pelo lado dos Imperiais coube a Caxias cumprir o acordo e ordenar às tropas, para que também se deslocassem até o local para combater os farroupilhas que lá estivessem.

Os Lanceiros Negros eram compostos por escravos cativos, libertos e alguns cedidos pelos seus proprietários. Os mesmos se transformaram no mais importante comando de ataque, quer pela garra ofensiva ou pela insurgência de recuar e a bravura dos Negros, que lutavam pelos ideais dos brancos e pela própria liberdade.

A refrega encontrava estagnada, os lados demonstravam sinais armistícios para encaminhar um acordo contemplando os interesses mútuos. O Presidente Bento Gonçalves estava acometido de doença, e paz crescia como saída para conflito.

A abolição da escravatura era tema vertente durante a revolução. Não havia consenso entre os estancieiros sobre o destino dos negros escravizados que lutaram na revolução.

O Império não se coadunava em ver Negros libertos e armados. Enquanto que os Farroupilhas tinha-os como espolio, não unânime, de conceder a liberdade aos escravos incorporados ao exército Farroupilha.

O empecilho para a Paz seria os negros que havia no exercito Farroupilha. O que fazer com eles. Canabarro e Caxias executaram a parte final do acordo, procedendo nas últimas instruções para eliminar os Lanceiros Negros, que estavam obstaculizando o avanço nas tratativas de Paz. Era evidente que não poderiam sair eliminando os negros de hora para outra, ou seja, não ficaria bem para homens de bons princípios, visto que se tratava de um General e de um Barão.

A história nos permite fazer conjunturas e estender nossas convicções, ao ponto de acreditar que durante os encontros precursores da Paz, alguém do alto comando, diante da impossibilidade de “justificar a matança dos negros, arranjou para que morressem em batalha.” E foi exatamente isso o que veio a ocorrer na “dita” Batalha dos Porongos.

Difícil de conceber que Duque de Caxias, o maior oficial militar da história do Brasil, elevado à honraria de Patrono do Exército, denominado de “pacificador”, impôs ou concordou em desarmar os Lanceiros Negros para simular uma batalha com o intuito de justificar a morte de aproximadamente meio milhar de negros.

A confirmação das ordens de Caxias para o confronto capital consta em uma carta remetida ao Coronel Imperial Francisco Pedro de Abreu. A carta orientava atacar os Lanceiros Negros, tudo estava combinado. O arquivo histórico do Rio Grande do Sul confirmou a autenticidade do documento, reconhecendo como verdadeira a assinatura de Caxias. São muitas as coincidências que confortam essa versão, entre elas, é que no acampamento estavam separados os negros, os brancos e os índios. Somente os Negros foram mortos.

Não ocorreu batalha. Não havia elementos que pudessem justificar a existência da batalha, não houve confronto opostos. Ocorreu foi à vergonhosa chacina de soldados Negros, desarmados e incrédulos.

Os Negros sobreviventes tiveram destinos nefastos. Muitos foram enviados para o Rio de Janeiro, onde permaneceram prestando serviços ao Império de forma continuada e mais cruel do que muitos negros cativos.

A Inglória Farroupilha ofusca a Revolução por muitos comemorada como a redenção do povo Gaúcho. Há reparos a fazer. Primeiro ao Negro guerreiro traído, reconhecendo a chacina no Cerro dos Porongos como verdadeira. Na sequência reescrever a história da Guerra Farroupilha, contando todos os exatos termos dos fatos ocorridos, para comemorar nossos feitos e reconhecer os erros, as traições, as tragédias e a inglória Farroupilha.

 

Arlei Dias dos Santos
 O autor do texto é advogado, exerceu o magistério jurídico, autor de livros jurídicos. Escreveu contos materializados no livro os  Trilhos da Vida .
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