BOCA DE OURO


Festival do Rio 2019 | Clássico de Nelson Rodrigues, Boca de Ouro ...

Na terceira versão cinematográfica da clássica obra de Nelson Rodrigues, voltamos a questionar uma nova versão assim como fizemos com a dirigida por Bruno Barreto há 30 anos atrás; a versão de Nelson Pereira dos Santos continua imbatível em todos os aspectos, mas é assustador que, em tempos de tecnologia avançada, nem a proposta de autoralidade dê resultado positivo no trabalho de Daniel Filho aqui, ou que efetivamente seja ele o principal problema de sua realização; de características assumidamente populares (e não há qualquer viés negativo em estar nesse lugar), o diretor não consegue criar uma atmosfera consistente ou reverberar os códigos que joga na tela de maneira desplicente.

Ao assumir pra si um olhar arthouse para uma obra de alcance infinito como a de Nelson, Daniel até abre de maneira eficiente seu filme, com um preto e branco que se extingue quando exposto ao vermelho sangue. Entendemos então que o flashback do filme passe às cores e que o tempo presente narrativo abrisse mão das mesmas, mas o filme não respeita essa norma estabelecida pelo mesmo e fura as regras eventualmente, dando a impressão de esquecimento. Não fica necessariamente clara a função dessa escolha estética, tendo em vista que o filme aos poucos se exima de qualquer obrigação com o bom gosto imagético, ainda que se ressinta dele. Como uma floresta no qual raramente entrou, Daniel se perde.

Quando explicita suas intenções às raias do cinema de gênero ele é bem melhor sucedido, e os efeitos gráficos do filme provocam impacto. No viés cômico impressos tanto por Silvio Guindane quanto por Malu Mader e Guilherme Fontes, também o filme consegue atingir seu ponto de alcance, em detrimento das tentativas de conseguir um espaço cerebral na cinematografia. A fotografia de Felipe Reinheimer não tem a qualidade esperada de um projeto que parece desenhado para impressionar imageticamente (tirando a cena de nudez de Fernanda Vasconcelos, talvez o mais bonito plano do filme), além de também não ajudar o fato de Daniel ter dirigido a série global A Vida Como Ela É…, baseado também em Nelson, e tentar reproduzir vários cacoetes de lá aqui, só parecendo antiquado e deslocado.

Ao tentar transpor como também tinha feito no projeto global, Euclydes Marinho não se deu conta que se passaram mais de 20 anos desde então, e muita coisa mudou. Ainda que o universo do autor seja muito particular e fruto de sua época, algumas decisões do próprio diretor comprometem o resultado ao decidir filmar com extrema riqueza de detalhes a nudez feminina, e explorá-la. Ainda que não falte nu frontal do protagonista, a obra de Nelson é altamente polêmica e hoje em dia precisa ser problematizada (de maneira propositiva), no que Daniel responde apenas recorrendo a possíveis reafirmações de machismo e misoginia, sem qualquer cerimônia; não bastando esses códigos serem do repertório do personagem-título, Daniel os reproduz em imagens.

O elenco, como já citado, compreende seus papéis de origem e atacam com vontade suas deixas. Lorena Comparato e Thiago Rodrigues obviamente não estão no mesmo nível dos demais, mas não causam feio. Ainda que isso tudo seja dito, Boca de Ouro é obviamente um veículo para Marcos Palmeira brilhar, o que o ator faz com o pé nas costas. Subestimado na TV e no cinema, Marcos mostra aqui porque merece maior consideração e transforma o filme em um palco só seu. Pena que, como em todo espetáculo, para o brilho mais intenso de sua estrela maior, todos os elementos ao seu redor precise convergir positivamente, e aqui, a despeito do magnífico texto de Nelson e de um outro acerto imagético (a cena dos corpos na banheira é um exemplo do grande filme que Daniel poderia ter entregue), o filme não faça jus ao talento de seu intérprete central.

Crítica da cobertura do 52º Festival de Brasília

Compartilhe essa postagem

Sem comentários

Adicione o seu

Saúde Pública